quarta-feira, 16 de março de 2016




todas as "vésperas" são felizes e nós felizes nesses dias de vésperas. o céu é sempre azul as casas caiadas de branco o pão fresco em cima da mesa. os corpos são esguios e despidos dançam sobre a areia ou ao relento as aves voam rasas às janelas e as nuvens têm forma de corações. as palavras essas são suculentas e escorregam-nos das mãos com a desenvoltura pueril de quem acredita no milagre da poesia.
depois chega o dia. chega um agora intenso carregado de nevoeiro opaco. um agora cinzento lusco-fusco seguro apenas da noite que há-de vir. o corpo esquelético e reumático arrastando-se no soalho o sexo flácido os olhos baços mal distinguem as bordas da cortina rasgada. agora com chá e bolachas duas bengalas o ouvido turvo as rugas sulcando o rosto como arado. faz frio em toda a casa. faz muito frio. a cama vazia a cheirar a mijo, o gato cego em cima da mesa a jarra com flores de plástico desbotado. a televisão sempre desligada e o rádio roufenho. as visitas raras. cada vez mais raras as visitas. uma vizinha traz a sopa requentada do dia anterior. o carteiro já não toca.
um dia a vizinha esquece-se da sopa. um homem vem contar a luz e a porta já não se abre.

* as aspas de "vésperas" justificam-se por haver uma referência muito pessoal ao livro "Tempo de vésperas", do Professor Adriano Moreira, de 1971, cuja leitura refaço regularmente.


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